Doutores da Alegria e Le Rire Mèdecin – intercâmbio em Recife
O PRIMEIRO DIA – O palhaço se revela no outro.
O coração batia forte. A nossa sede estava esperando: O primeiro encontro com o Le Rire Mèdecin. Tarde de sábado, 14 de março. O verde e amarelo se misturaram com o azul e vermelho de 13 de março a 06 de abril em Recife. É que recebemos o grupo de palhaços franceses para um intercâmbio.
Todos nos apresentamos, falamos os nossos nomes de palhaço. Enfim, iríamos conhecer Caroline(Girafe),Bruno K( Alfredo), Bruno Gare(Jacolivier), Stefii(Josefine), Jeannick (Huguet Esperança), Margot(Madeleine), Piarrete (Basket), Vincent(Molotoof), Patrick(Brócoli)e Hèlene(Colete Gomete). Alguns trouxeram umas frases em português e leram pra gente, grata e divertida surpresa! Engraçado de ouvir.
Teríamos pela frente três semanas de trabalho. Um intercâmbio com um tempo razoável. Nós brasileiros compramos alguns dicionários em francês. Não seria tão difícil a comunicação coletiva, pois tínhamos a Biti e a Luciana Viacava, dos Doutores da alegria São Paulo, que falam francês fluentemente – ufa, alguns falam inglês, então arrastando ou não, com sotaque ou não, iríamos levar o barco com prazer e sem dor.
Nos olhamos, nos escutamos, nos admiramos, estávamos que como crianças olhando um “semelhante” – ôpa, sim, estamos no mesmo barco. Somos palhaços que trabalham em hospitais. E agora vamos experimentar juntos. Vamos nos revelar juntos.
ELEPHANTEAU – “O meu mundo é aquele onde há infinitos espaços, mas em cada um deles um lugar é seu”.
Dia 01 de abril, contrariando as maiores mentiras que apareceram nesse dia, já que dia primeiro de abril é o dia da mentira, conto-lhes a maior das verdades: nesse dia escutei a mais bela canção de ninar que os meus ouvidos puderam ouvir. A música foi um presente do Le Rire Mèdecin para o grupo brasileiro, chamada “Elefante” ou “Elephanteau”. E com as mais doces e melódicas vozes, eles cantaram suavemente ofertando o seu amor. Foi difícil segurar a emoção, ok, as lágrimas brotaram nos olhos, e porque não chorar? Então, a sala se fez toda de abraços, no final da canção. Estávamos também iniciando a despedida, pois eles partiriam no próximo dia 06. E nesse presente me senti no mundo dos palhaços franceses e de mansinho, tal qual a música, me aconcheguei nesse nosso primeiro dia de inspiração. Foi o primeiro dia do ensaio do Cabaré, que aconteceria dali a três dias.
Melhor ainda foi aprender a cantar um pedacinho da música em português e misturar as duas línguas na música, deixando-a simplesmente linda. Cantamos no Cabaré para os 292 expectadores que superlotaram o teatro Apolo, e emocionados, entregaram seu mais lindo silêncio dando lugar à canção. Bonito demais é ganhar de presente uma música. Não é palpável, não é material, mas é mais forte que um diamante. Então pudemos cantar juntos a nossa canção de ninar e os nossos corações tiveram certeza que o presente seria para sempre. Sabemos que o palhaço não tem as respostas, mas sabe onde quer chegar. Com essa música eu quero chegar a muitas crianças, em muitas pessoas.
Como diz a canção, o elefante vai dormir e sonhar...
“Música de noite mansinha, o planeta azul viaja. Todo mundo dorme assim via láctea sem pedágio...”
M A R A C A T U - Take me into your world!
Março, 20
Coisa mais bonita ver os palhaços franceses tocando uma alfaia. Fomos todo o grupo para a areia da praia tocar maracatu. Para o Le Rire Mèdecin, era novo. Para nós o costume de ter nas mãos uma alfaia trazia o conforto de brincar, e de poder compartilhar o que sabíamos. Uma grande surpresa quando apareceu um homem bêbado, que simplesmente entrou na roda e começou a dançar. Permitimos. Num outro momento dois garis também sacudiram o corpo ao som do maracatu pernambucano-francês. O céu, pra lá de estrelado, produzia ainda mais brilho nos olhos de Caroline, que admirada, olhava para a Luciana tocando o abê. Patrick fazia fotos enquanto Jeannick, Margot e Hèlene dançavam com Greyce. Lindo ver Bruno K tentando entender as batidas, contando, arquitetando e depois reproduzindo o som. Bruno falou: “tenho a alma brasileira”. Bruno, que dias depois estava bronzeado, exibindo seu corpo moreno, do sol brasileiro.
Le Rire Mèdecin e Doutores da Alegria viveram a aprendizagem da sensibilidade. Aprendemos coisas uns com os outros, na relação. E com confiança e admiração, trocávamos os nossos tesouros. Uma coisa é certa: nós promovemos boas misturas. Palhaços brasileiros e palhaços franceses: maracatu, samba musete, e enfim, A “garota de Ipanema” iria mesmo cantar ‘La Vie en Rose” em ritmo de samba!
MIOLINHO MOLE – O humor do palhaço está no coração...no miolinho nossos batimentos se encontraram.
Hospital Oswaldo Cruz, 26 de março
O carnaval é o espaço apaixonante onde livremente as pessoas se expressam e extravasam. E como fazer o carnaval adentrar o espaço-hospital?
Já fazemos o bloco do “Miolinho mole – o bloco mais bobinho do mundo” há três anos nos hospitais que atuamos. O Miolinho, que surgiu a partir do Bloco do miolo mole – o bloco mais bobo do mundo, uma ação criada para compartilhar o nosso trabalho com toda a sociedade recifense, não podia ficar fora do intercâmbio. Queríamos compartilhar com o Le Rire essa experiência, que tanto reforça a nossa identidade pernambucana. O grupo francês não se fez de rogado e até aprendeu a tocar e cantar algumas marchinhas de carnaval. Então, 25 palhaços chegaram munidos de muita alegria e música para fazer o carnaval no hospital Oswaldo Cruz – carnaval fora de época, diga-se de passagem.
Para nós foi uma dupla surpresa: primeiro ver as crianças e o povo do hospital no clima carnavalesco, mesmo que já não fosse carnaval, e depois ver os franceses suando a camisa, pulando carnaval, cantando “alalaô” e se divertindo como ninguém!
O dia do Miolinho é um dia especial e atípico. O atendimento não é feito pela dupla e individualizado, mas ao contrário, atinge todas as pessoas que estiverem passando, pacientes ou não, dispostas a brincar, com todos os palhaços juntos. O hospital todo se enche de festa e beleza. Aqui, a nossa tão falada “linguagem do palhaço” atinge o seu ápice – sem fronteiras, sem desigualdades ou preconceitos. Ver um paciente segurando o seu soro, cantando, dançando, olhando pra vida e lutando por ela, é algo impagável.
No Miolinho aproveitei para me encher de orgulho e nada falar, mas olhar pros nossos amigos franceses e convidá-los para essa “bagunça gostosa”, onde paralelamente acontecem mil encontros e como num roteiro, uma grande rede dramatúrgica se constrói a partir desses encontros. São tantas trocas de olhares, tantos sorrisos dispensados, abraços, disposição, que por breves instantes me pergunto: “estamos mesmo em um hospital?” e penso “como seria um bloco de carnaval num hospital de Paris?”
CABARÉ SAMBA-MUSETE: Receba as flores que eu te dou...
Ensaiamos o Cabaré em três dias. Patrick e Margot fizeram uma direção artística. Música francesa e brasileira, cenas e números, passagens do “Chaochi”. A fila estava grande fora do teatro e algumas duplas trabalharam no improviso com o público enquanto esperavam para entrar. Os improvisos se deram de forma muito divertida, o público admirado, olhando os franceses e revendo os palhaços brasileiros. Muitas crianças – e com o Cabaré tivemos certeza que o nosso público é fiel, comparece. Eu e Brócoli pudemos trabalhar juntos novamente e foi tranqüilo, a gente já se entendia. O Cabaré foi um lindo presente para o nosso público, mas sobretudo para nós mesmos. O ano da França no Brasil foi rico por essas bandas, e o público recifense ganhou 25 palhaços cantando a música de ninar “Elephanteau”, um dos pontos mais emocionantes do espetáculo. A tônica do espetáculo foi o amor. Regado de amor e poesia, o Cabaré finalizou o nosso intercâmbio com chaves de ouro.
PRIMEIRA RODA DE CONVERSA – Fazê-lo belo. Então, nos entendemos.
Março, 17. Impressões do Le Rire sobre o primeiro dia de observação:
Hospital Osvaldo Cruz. Dupla: Fábio Caio (Dr.Euzébio) e Luciano (Dr. Lui). Observadores: Vincent e Jeannick (Le Rire) e Heraldo (Doutores SP).
Hospital Restauração. Dupla: Greyce (Dra.Monalisa) e Márcio (Dr.Marciano). Observadores: Pierret,Patrick, Caroline e Bruno (Le Rire).
Jeannick: “um dia muito emocionado. Temos diferenças, mas fazemos o mesmo trabalho. Na UTI a segurança parece precária. Houve um momento de uma situação penosa, de muita dor para as crianças, e foi emocionante ver a sutileza dos palhaços conseguindo se adaptar bem a essa situação. Senti grande cumplicidade e acolhimento do hospital”.
Heraldo: “trabalho bastante honesto”.
Caroline: “No Imip a dupla acolheu os franceses com duas pequenas canções francesas, com direito à dublagem da Svenza, de Edith Piaf. Lá na França os palhaços usam as “antenas” – percepção – e no Imip a dupla estava com as antenas bastante desenvolvidas. Não entendemos nada, mas sentimos tudo. A gente vai jogar muito com as ações físicas, e com a escritura começo-meio e fim. Nós falamos a mesma língua”.
Patrick: “Tenho a impressão que somos primos próximos. Temos o mesmo trabalho de escritura, subversão, escuta, poético. O que vimos na neo-natal foi um presente formidável (Imip). Estava seguro que neste país todos iriam nos tocar muito”.
Pierret: “O trabalho tem um começo, meio e fim – qualidade semelhante com Le Rire. Na França não fazemos a neo-natal. Foi um presente ver o trabalho neste espaço. Os palhaços (Svenza e Ado) tinham uma galinha de plástico que eles ninhavam desde o começo, esse foi o tema do trabalho ali, eles tentavam dar um nome pra “filha” e arranjaram uma incubadora pra ela. Achei muito bonito, eles jogaram de verdade, o jogo sensível, delicado, não caricatural. Fiquei convencida que podemos trabalhar na neo-natal”.
Bruno: “Eu já imaginava, mas fiquei surpreso com o calor humano. Tinha um humor, como uma doçura, um mel. A passagem dos palhaços é uma festa. Eles preparavam o “Bonjour”. Nunca tinha visto isso. Essa gama de expectadores seguindo, se juntando. E o clima que fica depois”.
Pontos relevantes da roda de conversa:
1- O tempo da criança – esse é um grande tema no Le Rire hoje. Na observação que eles fizeram nesses dois hospitais, enxergaram esse tempo.
2- Sistema de saúde brasileiro – No mesmo hospital, dois prédios são bastante diferentes, tanto de espaço físico, quanto quantidade de médicos e pacientes.
3- Na França o Le Rire atende média de 40 crianças. Os palhaços ficam um tempo maior nas enfermarias e algumas vezes participam do procedimento médico porque divertem a criança nesse momento – desde que ela esteja de acordo – e amenizam a dor. No Brasil atendemos um número maior de crianças, o tempo precisa ser sem via de regra administrado pela dupla.
4- Os palhaços aqui são muito rápidos na relação, ao mesmo tempo justo. O povo é subversivo, surpreende o outro. Aqui os profissionais de saúde não têm muito problema com relação a hierarquias. Na frança demora-se mais para arrancar uma dança de uma enfermeira... Aqui foi observado que existe um lado coletivo forte. O palhaço vai agregando as pessoas, a equipe médica vê o trabalho e depois tece bons comentários.
5- O lugar da dor – Na França existe uma militância anti-dor. Há uma cultura do toque-mãe, enfermeira, criança. Um convite físico e doce, uma medicina anti-dor natural. Então existe uma diferença de meio. No Brasil rostos muito penosos e dolorosos, mas que ao mesmo tempo parecem entender ou aceitar a dor e sorriem, e lutam.
6- Transmissão – ponto diferente entre Le Rire e Doutores. Enquanto aqui a dupla rapidamente passa no balcão e conversa com as enfermeiras, perguntando sobre os casos extremos (crianças que sofreram violência, que acabaram de fazer uma cirurgia, etc), no Le Rire os palhaços passam de cara limpa antes do atendimento, e realizam a transmissão num tempo maior, sabendo os detalhes de cada caso, para assim atuarem de forma mais contundente a partir de cada caso. Aqui essa transmissão é mais direta e é feita naturalmente para o palhaço.
7- Para o Le Rire a máscara é o personagem que joga. Sem o nariz o ator pode falar o que quiser. Como ser levado a sério com o nariz? Aqui tiramos o nariz muito pouco, o “estado” é acessado e para conversar algum assunto sério com uma enfermeira, não necessariamente tiramos o nariz. É um limite que está em outro lugar, não no nariz.
8- Nos Doutores permanecemos com uma dupla de seis meses a um ano. No Le Rire o palhaço não tem uma dupla constante. Foi percebido na observação que as duplas têm coisas construídas juntos, há uma unidade construída pela dupla, eles não se deixam, o trabalho é fluido, sem força. E isso tem a ver com a confiança que um tem no outro. Por outro lado, no Le Rire os universos individuais são bem fortes, o que dá pano pra manga.!
Fiz observações na roda de como usamos o bom-senso sempre, inclusive nas transmissões. Procuramos saber sobre os extremos. Falamos também sobre os tabus culturais (violência- homens contra mulheres, macumba, bebida, sexualidade, analfabetismo). Em tudo isso precisamos nos antenar com o bom-senso, pois são pontos que fatalmente encontraremos nos hospitais no Nordeste. Então o lugar da brincadeira precisa ser cuidadoso.
SEGUNDA RODA DE CONVERSA – “Aqui os olhos são o corpo inteiro”(Patrick – Brócoli).
Março, 19. Sobre as primeiras trocas no Imip e Huoc.
Pierret: “na qualidade do jogo nós somos primos da mesma família, escuta, jogos de poder, olhar. De manhã foi mais difícil por causa da ansiedade das pessoas.”
Caroline: “Interessante a diferença de biotipo(com Svenza), mas foi preciso tomar cuidado pra isso não virar uma armadilha.Encontramos muita cumplicidade, mas também muito conflito. Uma coisa em comum é que gostamos de nos divertir. Mas é importante não só jogar, brincar e sim encontrar de verdade as crianças. Sinto falta da transmissão, não saber o que vamos encontrar, isso limita os riscos.
Vincent: “Gostei muito do encontro, do jogo. Mas a coisa mais importante que descobri é a falta que faz a transmissão”.
Pontos relevantes da roda de conversa:
1- Na França o cuidado com a limpeza e produtos nos bolsos para as mãos é maior. Aqui tudo parece mais natural, é um “caos natural”, onde mães, crianças, etc, se misturam facilmente a tudo.
2- Jogo não verbal – depois do intercâmbio, é bom os grupos recuperarem essa linguagem e experimentarem uma língua inventada, isso vai ser bom pro jogo.
3- A transmissão para o Le Rire é fundamental. Saber qual o problema da criança e sua evolução permite ao palhaço “arriscar mais”.
4- O risco aqui está no palhaço, no seu bom-senso, na sua percepção. É um fato que a questão prática (número de pacientes) não permitiria uma transmissão com o tempo que é feita no Le Rire.
NO HOSPITAL – o lugar máximo da troca. Escuta significada.
Mary En (Doutores da alegria Recife), Lola Brígida (Doutores da alegria São Paulo) e Brócoli (Le Rire Mèdecin): Hospital Imip – HGP
Toda primeira vez implica em: Desafio. Estávamos os três numa ala nova, nos conhecendo e cheios de vontade de jogar. Então tudo era novo. Os palhaços, as pessoas, as enfermarias – triplo desafio.
Duas palhaças brasileiras e um palhaço francês. Bem, as duas falam português, dois falam francês, os três falam inglês. Ok. Mas nem uma das linguagens foi vastamente utilizada. O que aconteceu foi que trabalhamos no campo do “não-verbal”. Esse lugar foi bastante falado nas rodas de conversa, e claro, nos primeiros dias, ainda não tão claro, principalmente para os palhaços anfitriãos, que tinham a preocupação de receber os franceses, de apresentar o hospital, de “cuidar” do todo.
Tivemos alguns atendimentos ainda confusos, principalmente de manhã, mas com o passar do dia, fomos nos entendendo, no campo do comum, onde o palhaço ativa o olhar e a escuta e onde a linguagem, que é universal, é a linguagem do palhaço.
Então percorremos um dia bem surpreendente, com encontros muito bons, com momentos grandes, ampliados, onde havia a participação de toda a enfermaria e momentos pianinho, num leito.
Para citar alguns momentos muito bons desse dia de trabalho:
-Primeiro interagimos com as enfermeiras de plantão, Brócoli conquistou todas de uma vez e Mary En tratou logo de achar a dona da calçola enorme. Alguém apontou que a dona era a Lola e ela fez várias tentativas (sem sucesso) de vestir a calçola. Brócoli foi ajudá-la e voltou todo enroscado com ela e a calçola. Enfim, muitas risadas e braços abertos para o nosso dia de trabalho. O interessante é que no final do dia resgatamos o mesmo jogo.
Ainda nos corredores, pude perceber o quanto o Patrick (Brócoli) lida com o absurdo – garantia de um bom trabalho para o palhaço. Se ele via um ventilador, se deixava “levar pelo vento”, se via uma porta de um armário, abria como se fosse entrar numa sala. E travou um encontro com nada mais nada menos que o hidrante. Então, muito dispostas ao jogo, nós, duas tontas de plantão, embarcávamos nessa loucura artística e os três intensificavam o trio. Fui obrigada a pedir ao Sr.Hidrante que deixasse o Brócoli partir, pois ele tinha muito trabalho pela frente. O jogo foi intenso, corporal. O que foi bom também para o Le Rire, pois é bom em geral para o palhaço não usar o verbal, que escorrega geralmente para o cotidiano. Para acontecer com fluidez precisamos ter muita escuta e respiração no jogo. Usamos muito a porta – produzimos imagens nas entradas.
-Na primeira enfermaria conhecemos um menino que assoviava muito bem e o chamamos de “passarinho”. Ele ficou no jogo todo o tempo, que desencadeou num outro encontro. Brócoli olhou para uma senhora que lhe abriu um farto sorriso então ele falou com o sotaque francês:
-Mi amor!
Imediatamente toquei no kasuo uma música de amor e os dois dançaram como dois pombinhos. Enquanto isso todas as outras pessoas, adultos e crianças (mais ou menos 20 pessoas estavam nessa enfermaria) se divertiam com a cena. De repente olhei para um menino, sentado ao lado de sua mãe e o mesmo jogo se fez entre nós dois. Lola e Brócoli jogaram todo o foco pro “casamento” entre Mary En e o pequeno paciente. Brócoli propôs uma foto de toda a família e nesse momento, muitas pessoas foram inclusas no jogo, inclusive as enfermeiras. A “foto” foi feita e os três palhaços avistaram uma menina pequena em sua cama do outro lado da enfermaria. Fomos lá e do meio do seu lençol florido, surgiu uma pequena flor, encontrada por Mary En – Aqui trabalhamos no pequeno, no suave. Nessa enfermaria passamos por vários momentos de grande e pequeno e quando saímos, as pessoas nos aplaudiram. Pensei “meu Deus, eles nem imaginam o quanto foi desafiante”.
Na enfermaria seguinte tivemos uma contribuição preciosa de um médico. Enquanto Mary En “dormiu”, Brócoli e Lola encontraram o príncipe encantado dela. E quando ela acordou, lá estava ele, o médico-príncipe, ao eu lado, para casar! Bom ver os pacientes morrendo de rir! E gostoso ouvir do médico, bem baixinho, como que para não quebrar a magia, “infelizmente não vou poder continuar a brincadeira até o casamento, porque tenho agora uma cirurgia”.
Nessa mesma enfermaria, Brócoli fez uma mágica (com a caixa de fósforos), quando ele acabou, eu também fiz a minha mágica (a mamãe ganso que pega o filhote com o bico) e depois eu olhei pra Lola e falei: “agora é a sua vez!”. Ela olhou, gaguejou, olhou de novo, mexeu nos bolsos e para nossa surpresa, tirou um cordão e fez uma mágica! Muito bom, aqui o elemento surpresa, o encadeamento do jogo, a construção dramatúrgica, o foco, o feed-back das crianças, tudo se conectou, tudo funcionou, num começo-meio e fim perfeito.
Lá embaixo encontramos os outros palhaços que estavam atendendo em outra ala, e foi um bom encontro, com música, saímos juntos para a sala. Antes porém, Brocóli, Lola e eu, entramos na salinha do microfone, que tem uma janela de vidro e uma placa: “não bater”. O primeiro a dar cabeçadas (técnicas, claro) foi o Brócoli, que arrancou das moças da sala um sorriso e um convite para entramos. Lá dentro ninguém nos segurou. Lola, sabiamente agarrou o microfone e falou “atenção senhoras e senhores do bloco cirúrgico, venham todos para a saída do bloco do miolo mole”. E pensar que todo o hospital ouviu isso!
TERCEIRA RODA DE CONVERSA – Aceitação e estranhamento.
Trios Hospital Osvaldo Cruz:
Hèlene (Colete Goumete), Enne (Dra.Mary En) e Fábio (Dr.Eu)
Margot (Madeleine), Luciano (Dr.Lui) e Heraldo (Dr.Severino)
Pontos para discussão:
· Pontos fracos, pontos fortes?
· Trabalho em trio?
· Espaço?
· O que foi mais difícil, mais fácil? O que deu mais prazer?
· O que você quer trabalhar nos próximos dias?
Para Enne - Reconhecer-se, se ver no outro:
Com Colete Goumete e Dr.Euzébio, tive momentos de muita surpresa. Tanto me surpreendi quanto surpreendi o outro. O outro palhaço, o outro criança, o outro profissional de saúde, o outro acompanhante. Conheço bem o hospital Osvaldo Cruz e retornar a um hospital que eu abri, que fui a primeira palhaça, é sempre muito agradável.
Nós inventamos a nossa própria língua e sem falar muito adentramos o universo do cômico, do interplanetário, do irreal. Muitas vezes me reconheci em Colete, admirando-a, compartilhando sem receios o seu mundo de quase “animal”, um belo animal, que surpreende o tempo todo, sem medos. O universo Bufão esteve muito presente no dia de trabalho. Colete arrisca e percorre um caminho denso, sem meias palavras. Sem dúvida somos da mesma família, sendo Colete aquela irmã mais velha, que entende melhor a teia que tece, que sabe exatamente onde quer chegar – mesmo que improvisando muito, ou o tempo todo. Colete guarda o “estado”, coisa que contribui bastante para o não desperdício de energia.
Trabalhamos bastante a porta, o vidro do quarto da criança, e mesmo quando saíamos da enfermaria, passávamos pela janela numa construção de imagem, dando uma continuidade ao jogo, ainda conectados com a criança que ficou na cama. Os finais tinham uma qualidade de dramaturgia, de jogo. Então mesmo que em alguns momentos o jogo se perdesse, ou por breves instantes ficávamos confusos, rapidamente nos conectávamos, e a diversão estava mais garantida que o contrário. Trabalhar em trio é mais difícil, um sempre ou quase sempre precisa ceder, apenas apoiar a dupla. Dr. Euzébio, talvez por ainda ser um palhaço relativamente novo, na maioria das vezes deu o apoio, sendo um pano de fundo muito bonito, muito companheiro, ora fazendo música, ora colocando “ordem na casa”. Imagino o que para ele eram duas palhaças um tanto loucas, e bastante subversivas.
Em alguns momentos, como corredores, onde não tivemos expectadores, nos divertíamos sozinhos – e porque não?
Um grande momento foi quando num insight, que é quando acontecem as melhores surpresas, depois de sairmos de uma enfermaria, onde tivemos vários expectadores, no corredor eu comecei a imitar Colete – seu jeito de andar, de se comportar. Colete imediatamente, claro que depois de triangular e pensar “espere pra ver Mary En”, também me imitou e todos rimos muito. Travamos uma briga e tiramos os jalecos – que foram pra dentro da calça do Dr.Eu. A nossa briga foi muito divertida para todos, e o pobre do Dr. Eu precisou dar um final e apertar a tecla de stop.!
Numa outra enfermaria, tinha uma mãe com uma menina no colo que olhava sempre para baixo. Eu e Colete nos abaixamos pra ficar na altura da criança. Tirei um objeto de imagem do bolso, Dr. Euzébio começou a cantar. Percebi que a criança não levantava a cabeça e nesse momento entendi que ela não enxergava. Olhei para a mãe, que me confirmou com a cabeça. Guardei o objeto e começamos a fazer diversos sons. Aqui aconteceu a transmissão, natural, sem constrangimento. Mas me pergunto: Se soubéssemos que a criança era cega, talvez tivéssemos ido direto pros sons, poderíamos ter um atendimento específico, com outra qualidade. Claro que se eu não tivesse uma abordagem delicada, isso poderia ter sido uma catástrofe, a mãe poderia sentir-se constrangida. Nesse ponto é muito importante saber antes. Mas fico me perguntando se corri mais risco sem saber que a criança era cega, ou se correria mais riscos, tendo essa informação...
Um fato importante é que sempre deixei cair a calçola, faz parte do meu repertório de gags, que no caso é clássico, mas pela primeira vez eu tirei a calçola e ela passeou nas mãos de todo mundo, sobretudo os adolescentes se divertiram muito com isso. Foi surpreendente para mim. Senti muito prazer trabalhando com uma palhaça surpreendente. Para essas coisas acontecerem é fundamental estar apoiada por um parceiro que alimente o jogo, a confiança se estabelece e você se arrisca mais.
Para Hèlene foi uma boa surpresa ser chamada de “cotonete”. Sentiu boa cumplicidade no trio, bem acolhida, se divertiu. Também sentiu que Fábio em muitos momentos foi um suporte. Para ela é difícil não se deixar tentar pelos adultos, é da sua natureza jogar com tudo. Aqui ela foi freada pelo calor, muito quente. Sentiu alguns domínios da equipe, mas procurou ir além.
O outro trio observou que não tiveram encontros uníssonos (trio) e que não conseguiram engatar no jogo.
Hospital Barão de Lucena:
Duplas: Dudu (Dr.Dud Grud) e Piarret (Basket)
Marcelino (Dr.Micolino) e Caroline (Girafe)
Observação: Enne: “Coça minhas orelhas?”
Os quatro trabalharam juntos na emergência e no ambulatório. Surpreendente ver as palhaças num jogo onde é realmente importante incluir as crianças (exemplo do trenzinho). Na emergência a música ganhou força quando Basket e Girafe formaram um trenzinho humano com as crianças. Isso foi muito bonito de ver, pois elas não estavam preocupadas com o tempo, com a ação artística, mas com o encontro onde as pessoas se incluíssem e se sentissem parte.
Também bom ver a diferença de personalidade das palhaças. Enquanto Girafe é doce, o que a torna mais engraçada pela discrepância do biotipo, Basket é um tanto ríspida, séria, e as duas têm uma grande capacidade de atrair as pessoas. Muito divertido ver Girafe dizer pra um menino: “coça minhas orelhas?”. Divertido porque Caroline olhou, se aproximou, esperou, e falou docemente em português, para surpresa de todos. Então a resposta foram risos igualmente doces.
Observei que de forma geral os palhaços daqui, de Recife, ainda não tem uma maturidade da qual o palhaço “Branco” precisa. Observando o Dudu, e também no trabalho com o Fábio, observo que o Branco não toma tempo no jogo, não alimenta o Augusto, mas simplesmente acaba o jogo. O Branco simplesmente coloca a casa em ordem. Um exemplo claro foi quando a Basket trocou de chapéu com o guarda – onde essa ação poderia ir? Como encadear o jogo pra que ele se torne divertido, se o guarda aceitou trocar de chapéu com a palhaça, porque o Dud Grud apenas deu bronca e pôs um fim no jogo?
Essa mesma observação foi feita por Hèlene para o Fábio (Dr.Eu) – porque não retardar a bronca, passar por outros estados, sentir-se incomodado primeiro pra só depois cortar o jogo?
Observação dos outros palhaços:
Luciano: “trabalhamos numa comunicação diferente e as crianças percebem”.
Bruno K: “Desenvolvi a relação, ao mesmo tempo coletivas, outras vezes individuais. O que mais atrapalhou foi o espaço pequeno (HGP-Imip), quartos com muita gente, impossível de gerenciar, de controlar. Isso incomodou”.
Pierrete: “Adorei a gentileza das pessoas (Barão de Lucena), a participação das enfermeiras, adorei os espaços. Mas em alguns espaços coletivos passamos muito tempo com os adultos. Na emergência e ambulatório quando encontrávamos o jogo, precisávamos ir embora. Pergunto: o que é mais importante – finalizar o jogo ou o timing do jogo? Dudu é sempre generoso, sempre diz sim. Tem uma sistemática de palhaço Branco. Falta o contra-ponto no estado do Branco. Poderíamos trabalhar dramaturgicamente e a partir de uma idéia esperar o jogo.
Patrick: “Tivemos um jogo entre cinco com muito boa escuta, muito disponíveis. Sem a fala para nós também é um bom treino. A Dra.Monalisa (Greyce) pegou a autoridade, é natural, mas não precisava com tanta força. Como não conhecemos o hospital achamos que a gestão é também uma responsabilidade dos palhaços da casa”.
Margot: “Gostei muito de uma super surpresa – o menino vestiu meu jaleco, meus óculos. Mas foi difícil encontrar esse momento no trio (Luciano e Heraldo), não sabia bem quem era o chefe, o cúmplice, etc. Em um momento eu tomei o papel pro jogo ficar mais claro. Foi difícil também não ter a noção do tempo”.
Stéfie: “Todas aquelas incubadoras é alucinante (Imip). O que eu levo pra eles? Isso é bom ou ruim? O atendimento na neo-natal faz bem?”
Heraldo (Doutores da alegria SP): “Pensar nas passagens nas alamedas (Huoc) é fundamental. Precisa fazer mais música, ser realmente passagem. Passamos muito tempo nesses lugares”.
Jeannick: “Estávamos muito miméticos (com Cícero, palhaço Titetê), faltou a clareza nas relações de poder. Achei as propostas às vezes muito realistas. Mas hoje tive a impressão de realmente entrar em contato com a criança”.
Caroline: “Também fiquei apaixonada pelo hospital Barão de Lucena, pelo calor humano. Com o Marcelino(Dr.Micolino) não fomos tão longe no jogo. Para mim a prioridade no trabalho é o encontro com a criança. Até semana que vem quero trabalhar menos a quantidade e aproveitar mais cada quarto, passar mais tempo com a criança”.
Vincent: “Nomear a criança é importante. A gente constrói a relação na constância. A transmissão faz falta”.
Pontos relevantes da roda de conversa:
1- O Le Rire sentiu muita falta das transmissões.
2- O palhaço Branco – falta alimentar o jogo, triangular, arquitetar o castigo pro Augusto e assim divertir-se e divertir.
3- Espaço/tempo – essa semana foi mais catastrófico. O não saber até onde ir, não conhecer os espaços torna mais difícil para quem não é da casa.
4- Práticas diferentes – aqui contamos muito mais com a cumplicidade direta dos profissionais de saúde e acompanhantes. Também precisamos aumentar o nosso campo de percepção pois não temos a transmissão de forma tão detalhada. A constância existe, a continuidade no jogo também, já que atendemos sempre nos mesmos dias e com a mesma dupla – sabemos os nomes das crianças, mas talvez por estarmos vivendo o intercâmbio, de estarmos com vários palhaços nos hospitais, enfim, as coisas demoram um pouco pra serem digeridas, é como um caos mesmo – mas um caos de espaço de troca, troca de tecnologia artística. Então no primeiro momento as semelhanças aparecem com força, e num segundo as diferenças é que ficam mais claras.
Hospital da Restauração:
Trio: Greyce (Dra.Monalisa), Biti (Dra.Valentina) e Bruno Gare (Jacolivier)
Trio: Márcio (Dr.Marciano), Cícero (Dr.Titetê) e Bruno K (Alfredo)
Observação: Enne: “Sem você minha querida”
Observar os dois trios trouxe revelações surpreendentes. Muito bom perceber o crescimento do Dr.Marciano, notar que ele está mais disponível, com escuta formidável. Marciano, o anfitrião ficou o tempo todo junto dos parceiros, acolhendo as propostas e jogos que surgiam. Algumas crianças seguiram os três em todas as enfermarias, dificultando um pouco o trabalho, mas ao mesmo tempo comprovando o sabor bom daquele dia. Os três lançaram mão de uma estratégia, enquanto dois se concentravam num atendimento num leito, o terceiro ficava no jogo com as crianças seguidoras, mas isso só foi possível algumas vezes, em outros momentos, e ainda bem, os três trabalharam em trio. Três palhaços! Três patetas. O Alfredo, um delicioso e leve palhaço, veste um uniforme de futebol, um boné e toca um cavaquinho. Todo o tempo Alfredo toma “seu tempo”, respira, triangula, compartilha e alimenta o jogo. Ele encontrou o Marciano, que por sua vez, entra de cabeça na proposta do outro e os dois subiram na mesa da enfermaria... eu olhava para as crianças e as pessoas, que se divertiam muito, mas eu olhava a mesa balançando, balançando e pensei, “meu Deus! They are so crazy!” Mas eles fizeram bonito, desceram da forma mais atrapalhada possível, se enroscando no Titetê, para o delírio de todos na enfermaria.
Do outro lado do corredor pediátrico estava o outro trio. Duas palhaças e um palhaço, pra lá de afinados. O trio tinha combinações perfeitas: a Valentina apaixonada pelo Jacolivier, o bonitão, que queria a Dra. Monalisa! Então, com esse tema, eles saíram da salinha da troca de roupa e envolveram muitas pessoas no jogo. Numa enfermaria, a moça da limpeza entrou e o Jacolivier mais que depressa pegou a vassoura da mão dela e começou a cantar “Sem você minha querida” para a vassoura, mas a Valentina por breves momentos conseguia a atenção dele, só que a sua rival, Dra.Monalisa roubava a atenção do Jacolivier e as duas ficavam nesse jogo de perde e ganha... As crianças tomavam partidos, e os três souberam maravilhosamente incluir um Pai no jogo de conquistas, em determinado momento, todos dançavam e cantavam, mas as palhaças finalizaram o jogo desistindo do Jacolivier, que acabou ficando sem nenhuma. Nessa enfermaria os palhaços se divertiram bastante e fizeram um belo trabalho, tão harmonioso, verdadeiro, envolvente. Todas as pessoas da enfermaria se incluíram. O trabalho, essencialmente não-verbal, respirava com bastante energia, vivo.
Um momento marcante do dia foi ver o Alfredo (na UTI) perguntar a uma enfermeira se o menino que eles estavam atendendo ouvia e enxergava bem. Ele perguntou em francês, a enfermeira entendeu e respondeu que sim, que o menino podia ouvir e enxergar. Enquanto os outros dois estavam com o menino – aqui aconteceu a transmissão, rápida, direta, entre o palhaço e a profissional de saúde.
RODA DE CONVERSA GRUPO TODO (duas partes):
1- O que mais me tocou ou impressionou?
2- A jornada, as duplas, os encontros nos hospitais
O grande grupo conversou primeiro junto e depois dividimos em dois outros grupos. Para todos incondicionalmente foi impressionante perceber a força da linguagem. Nós temos uma linguagem única, universal, que funciona em qualquer lugar. Para a criança não importa se é um palhaço brasileiro ou francês, mas que é um palhaço e se este tiver a qualidade no jogo, o encontro será inesquecível.
A disponibilidade pro jogo é impressionante. Ficaram muitas coisas na lembrança, na memória, que jamais serão esquecidas, como o brilho nos olhos dos palhaços franceses no dia do Maracatu e a disposição para aprender as músicas do Miolinho Mole. O Vincent falou que o Maracatu ficou “no coração”.
Me impressionou também o profissionalismo do grupo francês, a seriedade e o cuidado com o Cabaré – tivemos três dias para montá-lo, mas o espetáculo foi pensado meticulosamente, milimetricamente, resultando num belo trabalho. A disponibilidade dos dois grupos, a vontade de fazer um bom espetáculo, a junção de talentos, culminando no nosso cabaré!
Para Patrick foi impressionante ensaiarmos 15 músicas em apenas 2 horas. Também para nós é impressionante passar uma tarde inteira ensaiando uma única música, estudando cada detalhe, cada nota. O Cícero (Doutores da Alegria BH) falou que se sente estimulado pra estudar partitura a partir de agora, que ver a qualidade e precisão musical do grupo francês foi fundamental. Também os franceses sentem vontade de tocar mais percussão, porque não?
Os franceses falaram que sob o aspecto coletivo, temos uma cultura comum – a dança, o canto, o carnaval- e que o povo francês precisa resgatar isso. Agora nasce uma vontade de criar um micro-sistema de cultura comum. O grande calor humano e a capacidade de sublimação do povo brasileiro nos hospitais também impressionaram o grupo francês. A generosidade das pessoas, com um jeito simples, peculiar, faz circular o calor humano. Quanto à hospitalidade brasileira, o grupo constata que ainda tem muito por fazer.
Margot falou “não tinha apreensão quanto à língua porque funciona em outros lugares, mas quanto à cultura. Realmente a linguagem pallhaço-criança-hospital é universal”. Este foi um ponto muito forte no intercâmbio, porque os encontros existiram independente da língua falada. No jogo, a escuta, cumplicidade, olhar – nossas ferramentas apareceram naturalmente.
Depoimento de Hèlene (Colete Goumete): “quando vi os palhaços pela primeira vez já comecei a chorar, de alegria. O palhaço não tem uma classe social, essa é a razão pela qual eu quis ser palhaça. Ver palhaços do outro lado do mundo reforça essa sensação e quero ir ainda mais longe. Uma grande diferença com a França é que aqui tudo é muito vivo, tem muita vida. Lá a dor é tratada de outra forma. Aqui vai fluindo, é “natural”. A mãe ri mesmo com o filho doente – apesar de tudo a vida é importante.
O Bruno K também sentiu que os brasileiros guardam uma dignidade, apesar da dor, apesar da desgraça. Para ele isso foi uma aprendizagem muito rica – a comunicação flui, é viva, todo mundo se deixa levar, se deixa ir, é um acolhimento natural. “Tô indo embora com uma lição de tolerância”.
A JORNADA – Troca amorosa. Como gostar e assimilar as diferenças?
Para os brasileiros o intercâmbio foi um presente – sensível, forte, sincero. É uma oportunidade de ver uma outra escola,outro trabalho, abrir a cabeça para outras reflexões e abrir o coração para o trabalho.
Levanto aqui pontos que se complementaram nas suas diferenças, retratando o intercâmbio na força dessa palavra: t r o c a. As diferenças levantam questões:
*Caracterização - O Le Rire Mèdecin tem palhaços bem definidos, com caracterizações individuais muito fortes. Por mais que tenham uma unidade, esta foge um pouco quando nos deparamos com os palhaços, extremamente diferentes e com personalidades diversas. O mundo de cada um é muito perceptível – a caracterização aqui complementa esse estado, tornando cada um uma peça única. Daqui, levanto a seguinte questão para os Doutores: - a nossa unidade de caracterização é forte, bonita. Mas porque não reforçamos a identidade pessoal, uma pesquisa mais acirrada, para daí surgir o figurino? Temos estados diferentes também, cuidar da identidade visual é importantíssimo, mas a partir desse novo ângulo e percepção, proponho ao grupo de Recife revisitar o seu individual, onde certamente surgirão coisas novas e contundentes do universo de cada um.
* A transmissão – Nos Doutores da Alegria as nossas antenas parabólicas precisam ser gigantes, o nível de percepção dos palhaços deve realmente ser antenado, ligado, pois as transmissões antes do atendimento são breves, muitas vezes acontecendo na hora, onde profissionais de saúde fornecem preciosas informações sobre as crianças. Não passar de cara limpa antes e conhecer caso a caso, proporciona ao palhaço esse teor de alto risco – aqui estamos falando de escolhas. Essa escolha na forma de trabalhar, até mesmo devido a questões culturais ou práticas, nos coloca em contato direto, em tempo real com a criança hospitalizada, e nesse momento vamos apenas nos encontrar com ela para jogar, brincar, ativar o seu lado saudável. Não saber a fundo qual a doença é uma “faca de dois gumes”: Por um lado oferecemos à criança as nossas melhores capacidades, e por outro corremos riscos de sofrer alguns constrangimentos que talvez pudessem ser evitados se fizéssemos a transmissão sob outro ponto de vista. No entanto, sugiro: um refinamento nos momentos iniciais do trabalho. A dupla pode dar mais tempo para esses momentos com as enfermeiras, questionando mais sobre as crianças, e sobre a evolução das crianças que estão há muito tempo no hospital – assim podemos pensar em atendimentos personalizados, tenho tempo inclusive para criar, preparar o atendimento.
*O palhaço Branco, as saídas do jogo – Leva tempo para ser um bom palhaço Branco. O Augusto que naturalmente é o mais inadequado e querido, atua mais livremente. No intercâmbio pudemos discutir esses papéis e perceber que podemos e devemos continuar trocando os papéis – mas como cada um tem naturalmente um estado mais definido, é bom lançar mão disso para proporcionar ao jogo ligas contundentes. É importante que o Branco tome o tempo da experiência – o tempo do encadeamento, nessa triangulação com a platéia ele pode alimentar o jogo e não apenas interromper. Para o grupo de Recife o caminho do Branco é mais razoável – esbarra no que talvez achemos fácil, mas que na verdade ser Branco é até mais difícil. Então proponho aos palhaços duas coisas: primeiro experimentar em alguns momentos essa diferença no estado – curtir a autoridade indireta, tendo muito cuidado pra não transformar isso em forma, em esteriótipo – e segundo, que é o mais importante – tomar o tempo, esperar o jogo se estabelecer, preparar, vivenciar, dar significado a esse jogo, pois a associação do tempo cômico e a construção dramatúrgica ganhará mais força, tanto no Branco quanto no Augusto. É preciso achar o jogo, acreditar e explorá-lo antes de acabá-lo. Essa cumplicidade e o conflito que existe entre o Branco e o Augusto se estiverem mais claros e com força dramatúrgica oferecem nível de qualidade maior. Claro que alguns palhaços tem o mesmo tom, são da mesma família e naturalmente os papéis se definem na ação, com a criança.
* Os espaços – Porque escolhemos o hospital? Temos uma contundência como palhaço interventor de mudança. Trabalhamos dentro de uma ética da inclusão onde propomos um humor que tenha um lugar no bom senso, no bom gosto, em boas realizações e qualidade nas relações. Nos hospitais temos vários espaços de dramaturgia, onde a relatividade está sempre presente no dia de trabalho. Stefii falou na falta de preparo para ambientes como os ambulatórios. Fica a seguinte questão: - Qual o nível do jogo para chegar num ambulatório ou numa emergência? Quanto tempo ficamos nesses espaços? Que ações fazem mais efeito nos corredores? Construímos dramaturgia ou criamos cenas para repeti-los em outros dias?
*Desenvolvimento artístico – O palhaço trabalha numa construção de constante desenvolvimento, a formação é continuada, e sempre vai perpassar coisas como vulnerabilidade, fracasso, improviso. Falamos na questão da constância das duplas – isso facilita um desenvolvimento artístico em dupla. O Le Rire não trabalha com duplas constantes e isso também é importante para não cansarmos, não nos viciarmos. O Le Rire trabalha bastante no jogo, na ação. É um caminho de liberdade, mas imagino que em sua terra-natal o grupo tenha repertórios construídos de rotinas dentro do seu desenvolvimento artístico. Talvez isso aqui seja mais elaborado devido à constância da dupla. O Patrick falou no ateliê, que tem sempre um observador atuante que desenvolve um trabalho a partir da particularidade de cada palhaço. Falamos dos nossos treinamentos, do papel do coordenador artístico, e da ampliação da missão, levando o trabalho para outro público e outros espaços. A grande diferença no campo artístico é que o Le Rire é um grupo que trás em seu DNA a música e o instrumento harmônico latente. Ao mesmo tempo o grupo brasileiro tem o instrumento percussivo e o molejo no corpo. Sabemos que um instrumento de harmonia no hospital será sempre bem vindo e que faz a diferença. Esse é um desafio individual do ator-palhaço: quero e posso tocar um instrumento musical harmonioso? Aqui falo em querer=agir, inspiração=desejo.
*O campo da humanidade e do afeto – O toque, o carinho, o abraço. Ou simplesmente o subjetivo. E como lidar com o subjetivo? Para os dois grupos o afeto está no trabalho. Alguns palhaços mais afetuosos que outros, mas todos com o espaço aberto. Se um momento pede um abraço, porque não? Aqui deixo uma questão: o artístico, o jogo cênico, que muitas vezes produzimos na dupla é externizado nas ações e todos se divertem vendo. Mas e o encontro com a criança, o olho no olho, a inclusão dessa criança no jogo. O que é mais válido para este trabalho? E como não correr o risco de parecer piedoso?
* Neo-natal – em dois hospitais do Recife atendemos a neo-natal: Imip e Barão de Lucena. Em ambos sabemos: o atendimento é mais voltado ou produz mais efeito nas mães e não nas crianças. Para o grupo francês foi um espaço novo. Nesses espaços não passamos muito tempo. Mas a mesma questão aparece: qual o nível de jogo para esse ambiente? Construímos repertório?
*Máscara – Well fala “eu e o palhaço, é tudo junto, mas não é esquizofrenia, é um estado”. Para mim essa foi uma diferença marcante entre os dois grupos. O uso da máscara para o Le Rire é um momento outro, sagrado talvez. Para nós o nariz está ali apenas como um código. Acessamos o estado com ou sem o nariz. Creio que essa questão perpassa muito mais pelo campo do individual. Cada palhaço acredita na máscara como quer acreditar. O crédito para mim está no estado de espírito. Acessar o estado está mais ligado a um encontro com uma criança, um nível desconhecido de espaço, um outro universo. Para Patrick a falta da transmissão incomodou em alguns momentos, mas também experimentar uma outra maneira, o uso da máscara/estado, ou não, tudo foi muito excitante, muita adrenalina.
*Registros – a produção de conhecimento foi uma constante no grupo francês. Todos os dias o grupo alimentava o seu blog, sociabilizando o intercâmbio. Essa característica de “disciplina” é uma diferença também marcante em todo e qualquer processo.
Despedida – We said goodbye
Não poderíamos nos despedir de outra forma – uma breve conversa, espumante pra comemorar e troca de presentes. Vicent tocando o acordeon, dança, fotos, lágrimas, sorrisos, agradecimentos. O mezanino do Hotel Manibu foi o acolhimento necessário para esse momento de luz e despedida. Depois fomos dançar, o samba da nossa sempre parceira Gerlane Lops, as caipirinhas maravilhosas de Recife, os olhares satisfeitos e o dever cumprido. Mas o que ficou nos dois grupos foi o desejo de continuar. Tudo vale a pena. Os hospitais, os encontros com as crianças, os dias difíceis. O desejo de continuar.
Interessante também perceber que os seres humanos têm muitas coisas boas em comum, independente da sua nacionalidade. E imaginem seres humanos palhaços!
Por Enne Marx
(Doutora Mary En)
Recife, Abril/09
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário