Dra.Mary En (Doutores da Alegria) e Huguete Espoir (Rire Medecin)
Hospital Hotel Dieu
Nantes – França
Dezembro/2009
Um pequeno relatório de trabalho
Impressões gerais:
Cheguei no hospital e logo percebi as diferenças, principalmente de espaço físico... a organização, a limpeza. Não tinha muitas pessoas no hospital porque estávamos próximos do natal e tinha menos crianças internadas, menos médicos, o hospital estava mais calmo que de costume, como me informou a Jeannick. Fomos primeiro na cafeteria, o que foi bom, porque conversei em português com a garçonete e foi divertido e acolhedor.
Conforme havíamos conversado no Brasil durante o nosso intercâmbio, eu sabia que o Rire Medecin trabalha com a transmissão, procedimento usual no grupo. O primeiro lugar visitado foi na Oncologia. Fomos conversar com a enfermeira, que se chama Marie, ela trabalha no hospital por longo tempo e conhece o trabalho dos palhaços. Conversamos sobre cada caso, de cada criança, um total de 10, uma criança em cada quarto ou no máximo duas. A transmissão pôde ser feita dessa forma. Depois fomos na pediatria geral, onde tem crianças com varias patologias, inclusive anorexia, a maioria adolescentes. Pude ver de perto o que é a transmissão, e perceber a importância, os pormenores, apesar de saber que nos Doutores da Alegria a transmissão é feita de forma mais rápida e diferente, porque geralmente atendemos cerca de 80 ou 90 crianças no dia, e sempre que há alguma coisa mais contundente nós paramos e perguntamos às enfermeiras, não é necessário o protocolo, mas a transmissão existe, só que adaptada. Procurei entender e perceber principalmente a necessidade da transmissão e entendi que em muitos casos é ótimo quando os palhaços sabem antes qual o problema da criança, mas não tudo, como no caso da criança ter sofrido violência. No Brasil a hierarquia praticamente não existe na pediatria, entre nós, os médicos e as enfermeiras. Podemos nos olhar e nos entender, com poucas palavras ou nenhuma. Claro que esse é um exercício trabalhado a longo prazo, em cada hospital, com as suas peculiaridades, vamos construindo essa qualidade nas relações a ponto de podermos falar alguma coisa “séria” sem a necessidade de tirarmos a máscara e tanto a enfermeira quanto o médico conseguem entender esse código. Na maior parte do dia, claro, os palhaços estão jogando, e o lugar habitado não é o da vida real, mas se por um acaso houver a necessidade básica de alguma pergunta, podemos fazer isso estando com a máscara (nariz de palhaço) e se for algum caso muito extremo tiramos a máscara.
A enfermeira Marie aproveitou e me perguntou várias coisas sobre os hospitais no Brasil, quantos leitos em cada quarto, como é o trabalho das enfermeiras junto aos médicos e crianças e diversas outras curiosidades. Esse momento foi bom porque pude sentir a hospitalidade e a alegria da continuidade do intercâmbio com o Rire Medecin, que começou em Recife na estadia deles em Março/2009.
Muitos foram os encontros, belos, surpreendentes e alguns marcantes.
Nos corredores aproveitei para ensinar samba às enfermeiras e qual foi a minha surpresa quando elas tentaram dançar! Os sorrisos, a abertura para o encontro e a disponibilidade me fizeram pensar “ops, talvez porque os médicos não estão por aqui, estamos perto do natal, ou Mary En é o máximo?”, rsrsrs,não sei, o fato é que me surpreendi com as enfermeiras tentando me acompanhar no samba. Uma enfermeira comentou “que roupa bonita e os sapatos também”... falei algumas palavras em francês, acho que foi divertido para eles escutarem aquele acento engraçado...
No restaurante pudemos escolher entre comida farta ou mais leve, sobremesa, suco ou refrigerante. A comida estava deliciosa, os meus ouvidos e olhos atentos a tudo, esbocei o francês, mas foi melhor ficar no inglês mesmo, e quando eu queria ouvir um pouquinho a minha língua passava no café no final do dia, onde tem uma funcionária de Portugal e nós conversamos bastante.
A linguagem do palhaço
(Mary En e Huguete)
Mais uma vez constatamos que os palhaços tem uma linguagem própria, o entendimento do jogo se faz no olhar, no corpo, em poucas palavras. Foi como se já trabalhássemos a muito tempo juntas, claro que isso se deve também ao fato de trabalharmos em programas irmãos, que primam sobretudo pela qualidade do trabalho, mantendo foco na formação continuada dos palhaços.
Huguete abria os espaços, conhecia o itinerário e me apresentava a todo mundo, “uma médica besteirologista do Brasil”, frison total, na salinha das enfermeiras tomamos um café e jogamos papo fora, tínhamos tempo, já que tinha poucas crianças para atender. Alguém identificou o meu chapéu “saquinho de fruta!” e eu pela primeira vez pude dizer “é daqui, da França, última moda em Paris” – sempre dissera isso no Brasil, kkkk.
Aproveitamos os estados de Branca e Augusta, naturais em cada uma, e nos corredores as pessoas podiam conferir duas palhaças, sendo que a mais esperta e elegante (eu) estava mais perdida que a outra. Aproveitei para augustar também e porque não? E daí tínhamos duas Augustas atrapalhadas dançando samba, falando poliglotamente e morrendo de rir... o entendimento foi perfeito, apoio e contra-ponto, olhar, escuta e uma antena parabólica gigante, em meio a tudo isso as crianças francesas, alvo do nosso trabalho, que me ensinaram muitas coisas pelos ares franceses.
Crianças e palhaços:
Oncologia
Diana
Entramos na enfermaria da Diana, que estava com a sua mãe ao seu lado, ela deve ter entre 11 e 12 anos. A Huguete entrou primeiro e disse: “Tenho uma parceira nova pra te apresentar, vinda diretamente do Brasil!” E eu entrei e me aproximei da sua cama, olhei pra ela e sorri, antes que eu falasse qualquer coisa, ela olhou para mim e começou a dar muita risada. Eu parei, olhei para Huguete e claro, aproveitei o jogo que se instaurou. “Vou entrar de novo!”
E na segunda entrada, ela riu ainda mais e assim por diante. “Mas porque ela ri tanto assim? Por acaso está vendo alguma palhaça?”
E a gargalhada corria solta, ela olhava para a sua mãe e as duas riam e Huguete perguntou a ela porque ela ria tanto. Falou balançando a cabeça e gargalhando “Ela parece a minha irmã mais nova!”
Espaço cirúrgico
Sara
A Sara me ensinou uma das lições mais bonitas na vida.
Quando entramos na sua enfermaria ela estava sozinha, com uma cara de choro, a sala meio escura, a TV ligada. Huguete que já a conhecia insistiu na abordagem, eu fiquei na retaguarda, meio sem saber se deveríamos mesmo entrar, pois me pareceu que ela não queria. Sara não tinha nada grave, estava com apendicite e aguardava a cirurgia, mas parecia deprimida.
Huguete aproveitando o escuro entrou como se estivéssemos numa caçada ao submarinho ou qualquer coisa assim... Sara que tinha um controle na mão acendeu a luz da sala. “Oh” pensei, “ela quer jogar”, Depois ela apertou o controle de desligou a TV, e nós “ohhhh”, eu falei “você faz mágica!”, ela balançou a cabeça afirmativamente e já esboçou um sorriso. Então eu falei pras duas: Eu sei fazer mágica, querem ver? Huguete falou, “duvido”! Então peguei no meu bolso a pata e o filhinho, ela tem imã no bico e a mágica é exatamente pegar o filho com o bico. Antes de consumar o fato, eu preparo todo o espaço, “senhoritas preparem-se para a mágica do século,etc, etc.”, Sara me olhava atenta. Depois que fiz a mágica ela falou: “mas isso é um imã!”
Huguete riu, ela também, e eu aproveitei a grandiosa resposta e me encostei na parede, com cara de “Ih, descobriram tudo”. Então Huguete fez uma outra mágica (de verdade) e até eu fiquei procurando a bolinha que ela escondeu magistramlmente na manga. Então eu comecei a chorar (choro de palhaça, claro), “eu não sei fazer mágica, não sou bonita como a Huguete, não sei fazer nada...” E Sara olhando para mim delicadamente, me chamou na sua cama e falou “Ce pas grave”. Nesse momento eu olhei para Huguete e estávamos ambas emocionadas, pois foi um momento de suspensão e como um filminho passando rápido na minha cabeça, eu pensei em todos os pequenos atos que cometemos, erros que tornamos grandes e colocamos nas costas como um peso de duzentos quilos. Aquela menina de 11 anos tinha me ensinado que somos seres humanos e por isso mesmo, passíveis de erros e pecadinhos. Acho que Sara ouvira isso nos últimos dias tanto da mãe quanto das enfermeiras e médicos, uma apendicite não é grave e ela não precisava ficar com medo.
Anorexia
Quatro meninas adolescentes
A priori eu tomei um susto quando as vi, pois no Brasil não costumamos encontrar anoréxicas nos hospitais onde atendemos. Mas como sempre o olhar de igual pra igual coloca a doença no espaço de segundo plano e nós começamos a brincar. As meninas tinham interesse de saber mais de mim, de onde vi, quem eu era. Huguete tentava explicar mas dizendo todos os meus defeitos, claro... as meninas riam e daqui a pouco tomaram partido, umas ficaram ao meu lado e outras com a Huguete. É bom ser surpreeendido pelo parceiro e eu vi um ovo voando em minha direção, que estalou na janela do quarto, fazendo todas nós rir de espanto. Huguete tinha um ovo maravilhoso, que estala e volta ao normal em segundos. O quarto virou um campo de guerra, eu joguei o ovo de volta e minha turma entrou embaixo do lençol pra se livrar da revanche. Foi um momento muito divertido de jogo, brincadeira sem racionalidade, na ação, que levou aquelas meninas pra um instante louco, insano com as duas palhaças, depois que saímos do quarto elas ficaram num bláblá alto, rindo e comentando.
Depois conversei com a Jeannick sobre o caso das meninas, ela me disse que é recorrente e que aquele hospital tinha essa ala especialmente para anoréxicos e que é mais comum entre meninas na adolescência. Algumas chegam a morrer pois rejeitam até mesmo o soro e o corpo não agüenta mais nada. Eu fiquei muito chocada com a magreza das meninas e pensei no Brasil e em outros países até muito mais desprovidos onde muitas crianças morrem de fome. E porque algumas se recusam a comer? Que doença estranha para mim. O mais surpreendente é que o jogo trouxe um elemento que é um alimento, um ovo! Muitas vezes acontecem essas surpresas nos jogos e sem perceber nós tocamos exatamente na questão, mas sem palavras, sem intensão.
Pediatria geral
Entramos num quarto onde o menino estava rodeado de gente, toda a família estava lá. Foi interessante porque o seu pai, muito aberto para o jogo, aceitou colocar o meu chapéu e até tirar uma foto. O seu filho, ria muito da situação ridícula, e eu aproveitei para pedir a sua mão em casamento. Seus pais aceitaram na hora, para o deleite do menino, que sem acreditar, via os pais brincarem de ser criança.
E no caminho para uma outra ala encontramos um menino na brinquedoteca que estava com um monte de lápis de cores. Huguete me apresentou a ele e disse que eu vinha do Brasil. Ele disse que não acreditava que eu vinha de tão longe. Eu falei “Mas olha aqui, a cor da minha pele, é típica do Brasil” , ele olhou olhou, pegou um lápis de cor de disse: “No Brasil tem gente roxa?” (kkkkkkkkk), e eu sei?
Especialidades
Encontramos um bebê muito fofo, e os seus avós cantavam pra ele e olhavam atentos para o berço. Na especialidade encontram-se crianças com doenças raras. Eu cantei a música do marinheiro, e o seu avô falou:
“Ah você é brasileira?”, “eu conheço o Brasil”. Foi muito bom ser reconhecida através da nossa estimada língua, e ainda mais uma música como essa, que eu cantava quando era criança. Depois cantamos uma outra música para bebês, que também fala em mar, peixes, mas em francês, “Le petit poison”, os avós cantaram conosco, e o momento foi tão bonito que ficou na memória.
Reanimação
Nesse hospital tem uma ala que parece a UTI, chama reanimação e é pra crianças que passaram pela cirurgia e necessitam de cuidados especiais pós-cirúrgicos. Não tinha quase nenhuma criança e nós mexemos com as enfermeiras, os médicos, tiramos fotos... Uma enfermeira assumiu que a minha calçola era sua e vestiu. Mais um momento surpreendente, jamais pensei conseguir essa proeza na França!
Nos corredores (que os franceses chamam de “paradas”), já voltando pra trocar de roupa, encontramos uma menininha no colo da mãe que ora nos olhava ora tirava o rosto, muito tímida. Huguete soltou uma bolha e foi a minha vez de surpreendela, eu rapidamente pequei uma bolha no ar(minha bolha transparente) e ela se surpreendeu com a reação da menina, que olhou surpresa, levantando a cabeça. Depois a bolha mágica foi passando pra todos os lugares, se escondia na orelha da mãe, na roupa e aparecia de novo. Por último deixei a bolha no colo da sua mãe perto dos seios, e a menina olhou pro local, acreditando que a bolha ficara lá. Foi um momento muito delicado e eu fiquei orgulhosa de ter conduzido tão bem.
As paradas em geral foram muito felizes, pois nós não parávamos pra conversar ou pra racionalizar alguma coisa, mas todo o tempo permanecemos no estado da brincadeira, dançando samba, batendo a cara na parede, cantando. Isso contribui pra que a energia permaneça lá em cima e o trabalho seja muito mais divertido.
De certa forma pude ver nesse intercâmbio que criança e palhaço são os mesmos em qualquer lugar, o jogo e o encontro acontece independente de língua, nacionalidade, tempo e lugar. Na verdade apenas constatei o que já tínhamos experimentado com os franceses nos nossos hospitais no Recife.
Merci!

Um comentário:
Enne, achei emocionante sua visão das experiências na frança, em especial a com Sara. "Ce pas grave".
Provavelmente o problema de Sara era mais a fundo do que a apendicite que aparece fisicamente e se pode tratar sem grandes problemas.
Lindo, lindo. Parabéns
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